Gestão empresarial: a lucratividade como condição de contribuição à sociedade

09/03/2018
Imagem retirada de http://www.gestaoempresarial.srv.br/
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As organizações de negócios são criadas e gerenciadas por pessoas, não por forças. As forças econômicas estabelecem limites para o que a administração pode fazer. Elas criam oportunidades para a ação gerencial. Mas elas, em si, não determinam o que uma empresa é ou faz. Nada poderia ser mais tolo que a afirmação repetida a toda hora de que a administração apenas adapta a empresa às forças do mercado. A administração precisa não só encontrar essas forças, mas também criá-las.

Outra conclusão é que as empresas não podem ser definidas ou explicadas em termos de lucro. Quando lhe perguntam o que e uma empresa, a pessoa de negócios típica tende a dar a mesma resposta: "Uma organização com fins lucrativos.". O economista típico também costuma responder da mesma maneira. Essa resposta não só é falsa, mas também irrelevante.

A teoria econômica predominante sobre os empreendimentos de negócios e seu comportamento, a maximização do lucro - que é simplesmente uma maneira complicada de reformular o velho dito de comprar barato e vender caro - , talvez explique de maneira adequada como atua determinado empreendedor. Mas não elucida como opera ou deve operar qualquer empreendimento de negócios, nem como deve ser operado. O conceito de maximização do lucro é, de fato, sem sentido.

Os economistas contemporâneos se dão conta disso, mas tentam salvar o teorema. Joel Dean, um dos mais brilhantes e fecundos economistas empresariais da atualidade, ainda mantém o teorema como tal. Mas eis como ele o explica.

A teoria econômica parte da premissa básica de que a maximização do lucro é o objetivo básico de todas as empresas. Porém, nos anos recentes, a maximização do lucro tem sido qualificada por muitos teóricos como requisito referente ao longo prazo; como imposição pertinente à renda da administração, não do proprietário; como conceito que inclui retornos não financeiros, do tipo aumento do lazer para executivos estressados e relações mai amistosas entre os níveis executivos dentro da organização. Nessas condições, deve considerar aspectos especiais como contenção da concorrência, garantia o controle gerencial, rejeição de demandas salariais e prevenção de cominações antitruste. O conceito se tornou tão genérico e nebuloso que agora parece abranger grande parte dos objetivos das pessoas na vida.

Essa tendência reflete a constatação cada vez mais difusa entre os teóricos de que muitas empresas, em especial as grandes, não operam com base no princípio da maximização do lucro, em termos em termos de custos e receitas marginais.

Um conceito que se "tornou tão geral e tão nebuloso a ponto de parecer abranger a maioria das ambições das pessoas na vida" não é o conceito. É outra maneira de dizer "Eu não sei e não compreendo.". Um teorema que se sustenta apenas quando se declara que quase todo é exceção decerto deixou de ser significativo e útil.

O perigo do conceito de maximização do lucro é fazer a lucratividade parecer mito. qualquer pessoa que observe a discrepância entre a teoria da maximização do lucro e a realidade dos empreendimentos de negócios, conforme retratada por Joel Dean, teria razão em concluir que a lucratividade não importa - conclusão a que efetivamente chegou John Kenneth Galbraith em "O novo estado industrial", disponível na "Economia gerencial" (Editora Prentice-Hall, ano de mil novecentos e cinquenta e um, página vinte e oito).

No entanto, lucro e lucratividade são essenciais - para a sociedade mais ainda que para as empresas em si. No entanto, a lucratividade não é o propósito dos empreendimentos de negócios e das atividades empresariais, mas, sim o fator limitante. O lucro não é a explicação, nem a causa, nem a razão do comportamento empresarial, tampouco das decisões empresariais, mas o teste de sua validade. Se arcanjos, em vez de humanos, se sentassem à mesa de reuniões dos conselhos de administração, mesmo estes seres celestiais se preocupariam com a lucratividade, apesar de sua total falta de interesse pessoal em gerar lucro. A mesma conclusão se aplicaria com igual força a indivíduos em nada angelicais, aos comissários que dirigiam as organizações de negócios da Rússia Soviética, que se veem obrigados a conduzir seus negócios com margens de lucro mais elevadas que as obtidas pelos perversos capitalistas ocidentais.

O primeiro teste de qualquer empresa não é a maximização do lucro, mas a geração de lucro suficiente para cobrir os riscos da atividade econômica e, em consequência, evitar prejuízos.

A raiz da confusão é a crença errônea de que a motivação dos empresários - a chamada motivação do lucro - explica seus comportamentos e os orienta para a ação certa. É muito questionável se existe algo como motivação do lucro. O termo foi cunhado pelos economistas clássicos, para explicar a realidade econômica que a teoria do equilíbrio estático não elucidava. Nunca se encontraram provas da existência da motivação do lucro. Há muito tempo já descobriu-se a verdadeira explicação para o fenômeno da mudança e do crescimento econômico, para cuja compreensão primeiro se desenvolveu o conceito de motivação do lucro.

A existência ou inexistência da motivação do lucro é irrelevante para a compreensão do comportamento empresarial, do lucro e da lucratividade. Que Jim Smith desenvolva atividades de negócios para gerar lucro diz respeito apenas a ele e ao Anjo Registrador. A resposta não nos diz nada sobre o que Jim Smith faz e como faz. Não foi aprendido nada sobre o trabalho de prospectores em busca de urânio no deserto de Nevada, se for dito que eles estão tentando fazer fortuna. Não foi esclarecido nada sobre o trabalho dos cardiologistas, se foi descoberto que o objetivo deles é ganhar dinheiro ou beneficiar a humanidade. A motivação do lucro e sua derivação, a maximização do lucro, são simplesmente irrelevantes para as funções e os propósitos de uma empresa, assim cmo para o trabalho de administrar uma empresa.

Com efeito, o conceito é pior que irrelevante: ele é nocivo, pois se destaca como uma das principais causas dos mal-entendidos sobre a natureza do lucro na atual sociedade, dos quais resulta a hostilidade profundamente arraigada em relação ao lucro, que é uma das doenças mais perigosas de uma sociedade industrial. Também é em grande parte responsável pelos piores erros das políticas públicas, decorrentes diretamente da incompreensão da natureza, da função e do propósito do empreendimento de negócios. Na verdade, as empresas só podem contribuir para a sociedade se forem altamente lucrativas. Em termos crus, uma empresa falida dificilmente é um bom lugar para trabalhar, como é improvável que seja boa vizinha e membro desejável de uma comunidade - não importa que alguns sociólogos pareçam acreditar no contrário. Outras informações podem ser obtidas no livro Fator humano e desempenho, de autoria de Peter F. Drucker.

Fonte: Administradores.com, escrita por Cláudio Márcio Araújo da Gama